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“Sobretudo, não minta a si mesmo. Quem mente a si mesmo e ouve a própria mentira chega a não distinguir mais a verdade, nem em si, nem no mundo ao redor; então perde o respeito por si mesmo e pelos outros. A pessoa que não respeita ninguém deixa de amar e, para ter alguma ocupação e distração na ausência do amor, dedica-se às paixões e aos prazeres grosseiros; chega ao estágio animal em seus vícios, e tudo isso em virtude da mentira contínua a si mesmo e aos outros. Quem mente a si mesmo pode ser o primeiro a ser ofendido.”

Os Irmãos Karamázov (Fiódor Dostoiévski)

“Com efeito, não será um erro crer que os sentimentos se reproduzem? Uma vez despertos, não existem sempre no fundo do coração? Aí adormecem ou despertam ao sabor dos acidentes da vida, mas aí permanecem, e esta permanência modifica necessariamente a alma. Assim, qualquer sentimento existiria apenas um dia, o dia mais ou menos longo da sua primeira tempestade. Assim, a dor, o mais constante dos nossos sentimentos, só seria realmente viva na sua primeira erupção. E as suas outras crises iriam enfraquecendo, ou porque nos acostumamos a ela, ou por uma lei da nossa natureza que, para se manter viva, opõe a essa força destruidora uma força igual mais inerte, firmada nos cálculos do egoísmo. Mas, entre todos os sofrimentos, a qual pertencerá este nome de dor? A perda dos pais é um desgosto para o qual a natureza preparou os homens. O mal físico é passageiro, não atinge a alma e, se persiste, já não é um mal, é a morte. Se uma mulher nova perde o filhinho recém-nascido, o amor conjugal rapidamente lhe dará um sucessor. Essa aflição é também passageira. Enfim, esses pesares e muitos outros semelhantes são, de algum modo, golpes, feridas, mas nenhum afeta a vitalidade na sua essência, e é preciso que se sucedam de um modo estranho para matar o sentimento que nos leva a procurar a felicidade. A grande, a verdadeira dor seria pois um mal suficientemente mortífero para abranger o passado, o presente e o futuro, não deixar parte alguma da vida na sua integridade, desnaturar para todo o sempre o pensamento, inscrever-se indelevelmente nos lábios e na fronte, destruir a alegria, pondo na alma um elemento de aversão por tudo que se relaciona com o mundo. E ainda para ser imenso, para assim pesar na alma e no corpo; esse mal deveria chegar em um momento da vida em que são novas todas as forças da alma e do corpo, e fulminar um coração bem vivo. O mal provoca então uma grande chaga. Grande é o sofrimento, e nenhum ser pode destruí-lo sem sofrer alguma poética mudança.”

Honoré de Balzac